Russ Lossing @ Ciclo Piano Jazz

dia 24 de Maio – Russ Lossing
Salão Nobre (Teatro Micaelense) | Início 21:30h | Entrada 10€

Qual é a diferença de Russ Lossing relativamente a Cecil Taylor? O facto de lidar com as convenções do piano. E o que o distingue de um Keith Jarrett? A circunstância de se ter emancipado dos protótipos pianísticos do séc. XIX e do romantismo e de ter conseguido encontrar espaços de liberdade dentro das próprias convenções.

Há, no entanto, aspectos que tem em comum com esses outros pianistas do jazz, e o mais importante deles será a igual convocação de elementos provenientes da música contemporânea. Quiçá até com mais evidência do que em Taylor e Jarrett, como é o caso da utilização do interior do instrumento, a manipulação directa que faz das cordas (para não falar de algumas técnicas de teclado) lembrando mesmo um grande inovador da família dita “erudita”, Henry Cowell*. Neste particular tem uma alma gémea, o britânico Chris Burn, e tal como este abraçou a causa da improvisação como uma forma extra de compor e não como uma recusa da composição, o que é mais um estado de espírito do que propriamente uma técnica ou, muito menos, uma estética – a pessoal particularidade de ir mais fundo no enraízamento jazzístico tem uma explicação muito óbvia, é americano e enquanto tal o seu “caldo de cultura” só podia ser o jazz e a sua tradição.

Enquanto pianista de jazz, e mais concretamente da condição “free” do jazz, Lossing surge-nos na esteira de uma perspectiva muito especial, a de Paul Bley. Até nesta vinculação é, no entanto, um “lone ranger”, pois temos aqui um dos raros descendentes daquela figura da revolução sessentista do século que passou, o que de resto lhe valeu da crítica o aplauso por ter escolhido a via mais difícil para tentar aberturas e heterodoxias. Não se trata de “tocar à maneira de”, nem isso seria verdade sabendo que estamos diante de um músico com uma voz muito própria, mas de continuar um entendimento com contornos especiais: tal como Bley, Russ Lossing troca-nos as voltas precisamente nos momentos em que o que faz nos parece familiar. Ou seja, não é um pianista de cortes epistemológicos ou de rupturas estilísticas – o jazz que toca é o mesmo que as mãos de Art Tatum e Bill Evans desenharam, e estes como outros nomes pressentem-se na sua arte, mas tem da música uma concepção e uma prática evolucionárias. Daí que catalogá-lo simplesmente como free jazz seja injusto, pois isso prende-o não só a um determinado espaço de actuação como a um tempo específico da criação musical, sendo a sua atitude tudo menos nostálgica e “pós-modernista”, no sentido de que o pós-modernismo é o reaproveitamento das ruínas dos grandes edifícios sonoros do passado. Lossing não recolhe os tijolos remanescentes da derrocada para reconstruir as velhas casas exactamente como eram antes, aproveita sim as fachadas do património do jazz para erguer uma nova arquitectura.

Oiça-se um disco como As It Grows para o confirmar. Acompanham-no o contrabaixista Ed Schuller, filho do paladino da third stream Gunther Schuller e tal como este um músico que não tem pela clássica os preconceitos que por exemplo Boulez nutre pelo jazz, e o baterista Paul Motian, uma das poucas lendas ainda vivas do Jazz, tendo feito história noutro trio, o de Bill Evans nos anos de 1950 e 1960. Este não é, decididamente, um álbum de barricada. Aliás, no que ao tradicional trio de piano jazz diz respeito, foi tão longe quanto esta nobre formação instrumental já conseguiu ir, o que, se quer dizer que a vanguarda passa por aqui, nem por isso deixa de ser a consequência legítima e natural de tudo o que ficou para trás.

* É verdade que Cecil Taylor usa os clusters cowellianos, recorrendo também aos cotovelos, mas ficou por aí na inspiração.

Ciclo Piano Jazz:

Neste Ciclo de 4 sessões de piano solo, que agora se inicia, importa destacar a enorme proximidade entre pianista e público, num clima de grande intimidade, através do talento e sensibilidade de importantes nomes da cena jazz contemporânea. Os restantes concertos acontecem nos meses Julho Outubro e Dezembro com os seguintes pianistas: Matthew Shipp, Joaquim Kühn e João Paulo.

Nota: Todos os textos aqui postos foram fornecidos pela organização do evento.

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