“King Lovano” (Expresso.pt)

O saxofonista tenor americano deu na Aula Magna um extraordinário concerto

Muitos estão apreensivos quanto à sucessão do grande Sonny Rollins. Pelo concerto da Aula Magna no dia 19, no meu caso, já sei que Joe Lovano está na linhagem da grande tradição dos saxofonistas tenores de som monstruoso e dominador, dos improvisadores que não cessam de espantar com a fluência e torrente das suas improvisações. É diferente vê-lo com o seu noneto ou noutro conjunto, com o impacto que causa à testa de um quarteto. A sua atitude, os gestos que acompanham o seu som, a sua movimentação e dança estão na esteira dos grandes saxofonistas negros que terá ouvido nos seus anos de formação. Com Lovano, não se trata de ser intenso como Coltrane ou cerebral como Shorter, com Lovano é a simplicidade de acção que domina, a coerência das linhas quantas vezes complexas, o swing abrasador e a emotividade do timbre.

O extraordinário concerto que deu em Lisboa revelou um músico que gosta de comunicar o seu gosto pelo jazz e não apenas o domínio técnico do conteúdo musical. Nos últimos tempos, Joe Lovano gravou com o octogenário Hank Jones peças inspiradas em Coleman Hawkins. O saxofonista interiorizou a herança de Hawkins a Rollins realizando um concerto de puro encantamento do jazz. Não interessa que discorra sobre uma peça mais complexa como uma das partes de Streams of Expression, que jogue no dramatismo de I Waited for You de Dizzy Gillespie ou que balance ao som dum calipso. O caudal de ideias é ininterrupto, o envolvimento é puro.

Para realizar um tão impressionante concerto, Lovano tinha de ter com ele músicos excepcionais. O pianista James Weidman, há muito um companheiro seu, é daqueles instrumentistas que não falham no engenho da invenção do solo e do apoio às linhas do saxofonista. Não admira, para ser acompanhante de cantoras como Abbey Lincoln ou Cassandra Wilson, ou ainda para tocar com músicos «avançados» como Steve Coleman e Marty Ehrlich, há que ser muito bom. Dennis Irwin é um contrabaixista sóbrio de que Lovano não prescinde, pelo seu tempo, sobriedade e impecável swing. A revelação da noite esteve a cargo de Francisco Mela, um baterista de origem cubana que, tal como os seus compatriotas Dafnis Prieto e Horácio “El Negro” Hernández, veio para incutir no jazz actual uma componente multirrítmica ainda mais rica. A actuação deste formando dos conservatórios cubanos e de Berklee fascinou e provocou o saxofonista para variações métricas incríveis. Talvez uma novidade, como quando Miles Davis ouviu pela primeira vez, há quase quatro décadas, o lendário Tony Williams. Em suma, para estes ouvidos, até agora, o melhor concerto de jazz do ano, a consagração dum tenor.

Rui Vaz Bernardo (Expresso)

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